Thursday, August 31, 2006

A filosofia das mãos sujas

Abaixo, editorial do jornal O Estado de S. Paulo do dia 30 de Agosto de 2006. Leiam e, na hora do voto, pensem não em vocês, mas no Brasil.

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A filosofia das mãos sujas

Perto da aula magna de ética na política que o presidente Lulaministrou segunda-feira em São Paulo a uma classe de dóceisintelectuais selecionados a dedo, as manifestações dos artistas PauloBetti, Wagner Tiso e do produtor de cinema Luiz Carlos Barreto, nasemana passada, apoiando a corrupção no governo do PT porque os finsjustificam os meios, parecem balbucios de crianças puras numa escolamaternal. Nunca antes se viu um presidente brasileiro - e nunca antesesse bordão de Lula há de ter sido tão apropriado - ir tão longe emdefesa das mãos sujas na vida pública, embora as suas palavras, tomadaspelo valor de face, fossem de resignação diante do que seria umarealidade amarga, porém imutável.

Elepode não ter se dado conta disso, muito menos desejado, mas sem sombrade dúvida entrou para a história do Brasil como o chefe de Estado quedisse para quem quisesse ouvir: “Política a gente faz com o que a gentetem, e não com o que a gente quer. Esse é o jogo real da política queprecisou ser feito em quatro anos para que chegássemos a uma situaçãoaltamente confortável.” A primeira sentença é uma meia verdade. Faz-sepolítica, de fato, com o que se tem. Nem por isso se precisanecessariamente fazer política cultivando o que há de pior no que setem. Mas foi esse, e nenhum outro, o ponto de partida do sistemapetista de poder para dar a Lula, por meios espúrios, maioria naCâmara.

Os políticos venais - “o que se tem” - não fizeramfila na rampa do Planalto pedindo mesada para votar com o governo. Foio partido do presidente que os procurou, diretamente ou por interpostoscúmplices, para mudarem de sigla ou, ficando onde estivessem, apoiassemas suas propostas. O suborno sistemático de deputados - chame-semensalão, valerioduto, uso de recursos não contabilizados, o que sequeira - foi a indelével e, pela amplitude e freqüência, inédita marcade Caim do “jogo real da política” jogado na era Lula. Em benefíciodele e do seu partido, por iniciativa de sua gente, pouco importando, aesta altura, se com ou sem o conhecimento do chefe, ou, por que não?,com ou sem o seu incentivo.

Já a segunda sentença, em que elefala da situação a que se chegou, é uma trapaça. À primeira vista, osujeito oculto da frase é o Brasil: fez-se o que “precisou ser feito”para o País desfrutar de um alto grau de conforto. Na realidade, fez-seo que se escolheu fazer para que ele, ao fim e ao cabo, pudesse chegarà antevéspera da sucessão numa situação altamente confortável. A metaúltima do mensalão, como de tudo mais que o presidente e seuscompanheiros fizeram, era a reeleição. Mas a lição enganosa nãoterminou aí. O professor deixou claro que os puros - ou os menosimpuros, como o PT, criado, segundo ele, “para errar (grifo nosso)menos do que os outros partidos” - não tinham saída, sendo o que é oque se tem.

Ora, seja lá para o que se criou o PT, é fatodocumentado que a sua conduta, tão logo começou a conquistar municípiosimportantes, se tornou cópia fiel, ou aperfeiçoada, daquilo queatribuía aos adversários muito antes de abraçá-los como aliados. Aética administrativa da atual deputada Angela Guadagnin - a IsadoraDuncan do mensalão - na prefeitura de São José dos Campos, em meadosdos anos 1990, não foi o avesso, por exemplo, da que os petistasexecravam no atual neolulista “Newtão” Cardoso, quando prefeito deContagem, mais ou menos na mesma época. E a indesmentível extorsãoinstitucionalizada em Santo André, na gestão Celso Daniel, morto ao quetudo indica por se opôr ao desvio do butim destinado ao PT.

Em2002, era o partido fazendo mais do mesmo - dessa vez para enfim elegerLula - quando o seu presidente José Dirceu pagou R$ 10 milhões ao entãohomólogo do PL, Waldemar Costa Neto, segundo ele próprio viria arevelar, pelo apoio da sigla que entrou com o candidato a vice, JoséAlencar. E quando pagou o marqueteiro Duda Mendonça no exterior, comdinheiro ilegal.

O “conforto” moral que Lula sente, ele quer quetodos os companheiros sintam. Para isso sugere que “o PT vai ter queresponder por seus erros (grifo nosso) e as pessoas que erraram - ouseja, os membros da ‘sofisticada organização criminosa’ denunciada peloprocurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza - precisampedir desculpas ao povo brasileiro”. E pronto!

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1 comment:

Ronan Jimson said...

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